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O peso que ninguĂ©m vĂȘ (parte 1)

Apr 22, 2025
3 min read

Ou: por que tantas mulheres estĂŁo Ă  beira de um colapso silencioso

Tem dias em que o caos fala mais alto que qualquer mantra.

E ele fala com razĂŁo.


Ser mulher em 2025 Ă© equilibrar mil pratos invisĂ­veis enquanto o mundo cobra que vocĂȘ sorria, produza, ame com gentileza, alimente com afeto, organize com eficiĂȘncia, recupere o corpo em 6 semanas, nĂŁo cobre demais, nĂŁo reclame demais, nĂŁo espere demais. SĂł entregue. E dĂȘ conta.


Mas e se vocĂȘ nĂŁo quiser dar conta?


E antes que alguĂ©m diga “ah, mas a minha mĂŁe, minha avĂł... elas davam conta de tudo, criavam 10 filhos e ainda costuravam cortina com a criança no colo” 

Sim. Elas davam.

Mas tinham escolha?


Quem nĂŁo dava conta era chamada de fraca, ingrata, descompensada.

E olha, nem precisa voltar muito no tempo.

Hoje em dia ainda Ă© assim.

A diferença Ă© que agora a gente tem vĂ­deo no Instagram explicando a diferença entre “assertividade feminina” e “mulher difĂ­cil”.

Uau, progresso.


E se for pra entrar nesse vespeiro de verdade, a gente vai cair direto em outras camadas:

na lĂłgica de sobrevivĂȘncia que virou padrĂŁo,

na romantização da exaustão,

na criação dos irmãos mais novos pelos irmãos mais velhos,

na educação punitiva,

na falta de rede,

no “deixa que eu faço” virando sentença...


E, claro, nas fantasias de fuga que a gente inventa pra sobreviver.


Vai dizer que vocĂȘ nunca pensou:"ai, queria ser aquela mulher do campo, do avental de linho, da rotina slow com as crianças, do pĂŁo caseiro assando no forno, do chĂĄ da tarde no sol da varanda"? 

Eu jĂĄ pensei.

Teve dia que eu sĂł queria isso.

E teve dia que eu até culpei quem queimou o sutiã.


Desculpa, tĂĄ?

Mas quem nunca?


SĂł que no fundo, a gente nĂŁo quer abrir mĂŁo dos nossos direitos.

A gente quer Ă© descansar sem abrir mĂŁo da dignidade.

A gente quer o pão no forno, o chå quente E o próprio dinheiro na conta, a liberdade de sair, de existir sem precisar pedir.

Porque essa tendĂȘncia tradwife aĂ­ pode atĂ© parecer doce.

Mas depender 100% de um marido nĂŁo Ă© poesia bucĂłlica. É risco.

E a gente sabe disso. Sabe com o corpo, sabe com o histĂłrico, sabe com o medo.


Agora, voltando.


A carga mental nĂŁo tem crachĂĄ. Ela nĂŁo chega avisando.

Ela simplesmente toma o seu dia. E o seu corpo. E sua libido.

E o pouco de paz que vocĂȘ tinha antes de pedir pra alguĂ©m guardar a comida na geladeira e descobrir que a pessoa deixou a panela aberta, sem tampa, jogada de qualquer jeito. Porque nĂŁo Ă© sĂł guardar. É pensar em como guardar, quando, onde, por que — e rever depois. O clĂĄssico: se vocĂȘ nĂŁo fizer, ninguĂ©m faz. Mas se fizer, ainda tem que aceitar o jeito torto que o outro “contribuiu”.


VocĂȘ nĂŁo estĂĄ exagerando. VocĂȘ estĂĄ cansada.

A carga mental Ă© a soma de tudo que vocĂȘ precisa lembrar para que a vida funcione mesmo que ninguĂ©m veja. Mesmo que ninguĂ©m valorize. Mesmo que vocĂȘ mesma tenha aprendido a chamar isso de “coisa pouca”.


E Ă© aqui que a coisa aperta pra quem materna.

Porque quando o bebĂȘ nasce, o mundo espera que uma mĂŁe renasça pronta. SĂł que o sistema nĂŁo oferece rede, o parceiro nĂŁo foi educado pra ver (muito menos pra agir), a sociedade nĂŁo considera cuidado como trabalho. 


E aĂ­ sobra pra quem?

Pra quem jĂĄ sangrou, pra quem nĂŁo dorme, pra quem tenta sobreviver com um peito latejando e o corpo ainda cicatrizando.


Seja bem-vinda ao clube das mulheres que cansaram de pedir ajuda.

Que deixaram de pedir porque sempre que pedem, precisam esperar o timing do outro.

E ainda assim, o lixo fica aberto no chĂŁo. O que Ă© Ăłbvio vira "exigente demais".


A carga mental, quando somada ao cuidado invisĂ­vel, vira um esgotamento que parece culpa.

Mas Ă© estrutura.


E vocĂȘ? O que anda carregando calada, achando que Ă© normal?



 
 
 

BEATRIZ FACIO, PhD Health Science, Doula

+46 73 635 80 29 | doulabeatrizfacio@gmail.com 

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